domingo, 20 de junho de 2010

E depois ainda dizem que o Dunga é o "atrasado"


por Luiz Carlos Azenha

“O negro é cientificamente mais forte”, disse um ilustre comentarista, em tom de elogio, a respeito da seleção da Costa do Marfim. Um narrador chegou a sugerir que sobra força física mas falta inteligência aos times “africanos”, razão que estaria na base do suposto fracasso das seleções do continente em avançar para a segunda fase. Bem-vindos à cobertura da Copa do Mundo da África do Sul.

Curiosamente, nos dois casos, provavelmente sem saber os “profissionais” reproduziram teorias cujo objetivo era fornecer justificativa intelectual para a ocupação física da África pelo colonialismo europeu.

Resumindo grosseiramente, essas teorias pregavam a superioridade natural dos europeus brancos sobre os nativos, que seriam “fortes”, mas “preguiçosos”, “lascivos” e “intelectualmente inferiores”. Essas constatações serviam, naturalmente, para justificar as ações europeias na África: o controle das terras, dos recursos naturais e a utilização dos negros “fortes” como mão-de-obra escrava ou semi-escrava. Justificavam, inclusive, o controle das rebeliões da mão-de-obra com o uso de métodos violentos (no Congo, os agentes do rei belga Leopoldo cortavam as mãos dos trabalhadores que não cumpriam as cotas de extração de borracha natural).

Os negros, afinal, não eram apenas atrasados. Eram bárbaros, representavam com sua “lascividade” uma ameaça física às mulheres brancas, símbolo máximo da “pureza” da civilização europeia, especialmente na era vitoriana. Vem daí o mito do superpoder sexual dos homens negros (assim como, na Segunda Guerra Mundial, a propaganda americana espalhou o mito de que os orientais são sexualmente pouco dotados em termos de centimetragem).

Para justificar a barbárie, surgiram pseudociências como a frenologia, que pretendia comprovar que as características de um ser humano podiam ser definidas pelas formas da cabeça. Os “cientistas” passaram a se dedicar, por exemplo, a medir o tamanho da cabeça de brancos e negros, encontrando nestes desenhos cerebrais que eram “prova definitiva” de sua inferioridade. Quando os alemães ocuparam as terras do povo herero, no que hoje é a Namíbia, por exemplo, provocaram uma rebelião que foi esmagada com uma guerra de extermínio e a implantação de campos de concentração para a população civil. Destes campos sairam dezenas de cabeças de prisioneiros mortos, remetidas para a Alemanha para “estudos científicos”.

Assim como os campos de concentração foram primeiro implantados na África (pelos britânicos, na guerra contra os bôer, pelo controle do que hoje é a África do Sul), as teorias que mais tarde seriam aplicadas por Josef Mengele em Auschwitz foram “testadas” pelo pai da eugenia, o médico e antropólogo alemão Eugen Fischer, na África.

Dizer, hoje em dia, que todos os africanos são fortes a partir do exemplo de 11 jogadores da seleção da Costa do Marfim é o mesmo que presumir que todos os estadunidenses são gigantes a partir da observação de um jogo de basquete entre os Lakers e os Celtics. Embora os brasileiros dominem há anos as competições de vôlei masculino, não há nenhuma razão para acreditar que sejamos “naturalmente dotados” para a prática do vôlei.

O que os nossos comentaristas, narradores e “jornalistas” deveriam se perguntar é razoavelmente óbvio: por que a seleção da Costa do Marfim é musculosa assim? Será que os africanos nascem com aqueles biceps e triceps “naturalmente” desenvolvidos?

Talvez eles encontrassem explicação no fato de que os jovens jogadores de futebol de alguns países da África — Camarões, Gana e Costa do Marfim, por exemplo — mal fazem estágio em equipes locais antes de ir para a Europa. Muitos destes jogadores são recrutados na pré-adolescência por caça-talentos que servem a escolinhas de formação de jogadores. No caso de Costa do Marfim, por exemplo, a escolinha mais importante do país vende um jogador jovem (18 a 21 anos de idade) para times de segunda ou terceira divisão da Europa por cerca de 600 mil dólares. Como o contato físico no futebol europeu é tido como uma característica do jogo, é apenas natural que tantos os preparadores quanto os próprios atletas trabalhem para “bombar” o físico. Não é diferente com jogadores brasileiros (vide a transformação física do Ronaldo, por exemplo). Muitas vezes um bom jogador brasileiro, como o Neymar, é tido como “muito franzino” para enfrentar o rigor do futebol europeu. E tome musculação, para não falar em hormônios e outros métodos clandestinos.

Pessoalmente acredito que essa é uma tendência suicida para o futebol arte: a produção em massa, em todo o mundo, de super-atletas destinados a suprir as necessidades de mão-de-obra das ligas europeias, jovens precocemente “bombados” e com pouco domínio dos fundamentos básicos do futebol (notem a qualidade bisonha dos chutes a gol na Copa do Mundo da África do Sul). Mas isso é outro assunto.

O que espanta, mesmo, é ver gente com alto poder de influência sobre o grande público repetir, em pleno século 21, preconceitos que nasceram de teorias racistas do século 19. São, afinal, apenas dois séculos de atraso.

PS: Em seu notável “The Lords of Human Kind”, em que trata especialmente da expansão imperialista, o historiador V. G. Kiernan nota com sarcasmo que os indígenas das Américas não entenderam, para seu próprio bem, que era “vantajoso” para eles o trabalho escravo nas propriedades dos brancos recém-chegados; razão pela qual foram dizimados e substituídos pelos escravizados negros, trazidos de outro continente, que distantes de suas culturas, seus povos e suas famílias não tinham para onde correr. Foi o mesmo princípio que guiou a importação de mão-de-obra chinesa para construir ferrovias britânicas na África do Sul ou mão-de-obra indiana para as lavouras de cana de açúcar na região de Durban (os coolies, de triste memória): longe de casa, os trabalhadores ficavam completamente à mercê dos patrões.

PS2: Quem quiser saber como funciona uma “escolinha” de futebol na Costa do Marfim, dirigida pelo brasileiro Joel, assista esta noite à revista Nova África, às 22h30m, na TV Brasil.

sábado, 19 de junho de 2010

Autoexclusão é maior obstáculo em entrada de aluno carente no vestibular, diz coordenador da Unicamp

Ana Okada
Em São Paulo
Atualizada às 11h48

Desde 2006, o número de inscritos nas isenções de taxa do vestibular da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) vem diminuindo. O programa começou em 2000, com 2.075 inscritos. Até 2006, o número cresceu, chegando a 11.903 interessados. Em 2007, a procura foi de 9.481; em 2008, 9.225; em 2009, 7.575; e em 2010, apenas 6.361 se inscreveram para obter o benefício.

De acordo com Maurício Kleinke, coordenador de pesquisas do vestibular da universidade, esse é um processo de "autoexclusão". "Não sabemos precisar se vem da dificuldade de locomoção, ou do Prouni (Programa Universidade para Todos), ou pelo fato de as três universidades paulistas terem processo de isenção de taxa", pondera.

QUAL É O MAIOR FATOR DE EXCLUSÃO DO ALUNO CARENTE NO VESTIBULAR?
VEJA COMO FUNCIONAM ISENÇÕES DE TAXA DOS VESTIBULARES DAS ESTADUAIS DE SP

O professor conta que, nos últimos anos, o número de inscritos de escolas públicas também caiu. Ele atribui essa aparente "falta de interesse" dos estudantes à falta de conhecimento dos benefícios que a universidade dá a estudantes carentes. "A gente sempre faz campanhas de divulgação mas o desconhecimento ainda é grande, nem sempre eles sabem que, depois que entram, podem ter bolsas de trabalho, alimentação, transporte, e moradia", diz.

"No fundo, a Unicamp é uma universidade de elite, com excelência acadêmica, mas também é uma universidade com todas as condições de qualquer bom aluno apresentar um bom desempenho, estando dentro. Um aluno carente terá todo o apoio para se desenvolver", explica Kleinke.

Igualdade
Na Unesp (Universidade Estadual Paulista), a isenção de taxa começou a ser dada em 1995, no Programa de Formação de Professores, para quem prestasse cursos de licenciatura. Depois, a universidade começou a dar isenção a candidatos carentes financeiramente e, atualmente, dá o benefício também a alunos de escolas públicas.

De acordo com a diretora acadêmica da Vunesp, Tânia Cristina Arantes Macedo de Azevedo, além de oferecer isenção e redução de taxa como forma de incentivar a participação dos alunos de escola pública, a instituição desenvolveu outras ações de inclusão tais como a utilização, a partir de 2010, da proposta curricular do Estado de São Paulo, a mesma adotada na rede pública.

"O resultado disso é que está crescendo o número de alunos com salários menores. Enquanto em 2000 só 3% dos matriculados tinham renda menor do que 1,9 salários mínimos, em 2010, o percentual foi para 10%", diz.

A meta do vestibular, segundo Tânia, é que a proporção do percentual de matrículas de alunos de escolas particulares e públicas chegue à igualdade, como era no passado. "Em 2003, o percentual de alunos de escolas privadas chegou a quase 65%; conseguimos conter esse avanço e hoje a proporção de estudantes de escolas públicas voltou a crescer", comemora a coordenadora.

Como ter isenção
Para obter a isenção de taxa, o estudante precisa se inscrever no período indicado pela instituição. O vestibulando deve ser de baixa renda e deve ter cursado o ensino médio em escola pública.

Após a inscrição, os interessados devem ficar atentos à entrega da documentação comprobatória e à divulgação da lista de isentos. Após o período, o beneficiado deverá efetuar a inscrição no vestibular.

Bônus no vestibular
Além dos programas de isenção de taxa, a USP (Universidade de São Paulo) e a Unicamp oferecem também bonificação. O da USP --O Pasusp (Programa de Avaliação Seriada da USP)-- é voltado a estudantes de escolas públicas e ocorre por meio de uma prova, que pode valer pontos extras na Fuvest.

O Paais (Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social), da Unicamp, é voltado a alunos de escola pública e estudantes afrodescendentes ou indígenas. Para participar, é preciso indicar a opção na inscrição do vestibular.

[1series] O perigo da "história única".

No primeiro bimestre, conversamos sobre a construção do olhar sociológico, a desnaturalização do olhar, o afastamento do senso comum e o senso crítico.

Vejam esse vídeo, em que se apresenta uma história acerca de problemas decorridos do senso comum.


Para ver esse vídeo legendado, selecionem View Subtitles >> Portuguese (Brazil)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Balanço

Os links abaixo relacionam os alunos que ainda não assinam o Grupo de e-mails.

E.E. José Pires Alvim

- E.E. Professora Zilah Barreto Pacitti

terça-feira, 15 de junho de 2010

[3ª séries] Direito violado

Esse vídeo é um exemplo de reportagem que poderia ter sido apresentada para a elaboração do trabalho.

[2ª séries] Disney Templates

A padronização na indústria cultural.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Vamos chutar o rascismo dos gramados.

Em clima de Copa do Mundo, abro este blog com um vídeo para pensarmos.


Sei que o vídeo está em baixa resolução, mas infelizmente a versão em alta não está legendada.