domingo, 12 de setembro de 2010

Manifesto dos Brancos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Este texto é um manifesto escrito e subscrito por brancos que compõem a comunidade escolar da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele é uma retumbante admissão pública, por nossa parte, de que vivemos em um contexto de exclusão estrutural de negros e indígenas dos benefícios e espaços de cidadania produzidos por nossa sociedade e onde, ao mesmo tempo, é produzida uma teia de privilégios a nós brancos, que torna completamente desigual e desumana nossa convivência. Somos opressores, exploradores e privilegiados mesmo quando não queremos ser. O racismo não é um "problema dos negros", mas também dos brancos. É pelo reconhecimento destes privilégios que marcam toda nossa existência, mesmo que nós brancos não os enxerguemos cotidianamente, que exigimos a imediata aprovação de Ações afirmativas de Reparação às populações negras e indígenas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

No Brasil vivemos em um estado de racismo estrutural. Já é comprovado que raça é um conceito biologicamente inadmissível, só existe raça humana e pronto. Mas socialmente, nos vemos e construímos nossa realidade diária em cima de concepções raciais. Portanto, raça é uma realidade sociológica. Não é uma questão de que eu ou você sejamos pessoalmente preconceituosos. Mas é só olhar para qualquer pesquisa que veremos como existe um processo de atração e exclusão de pessoas para estes ou aqueles espaços sociais, dependendo de sua cor. Não é à toa que não temos quase médicos negros, embora eles sejam a maioria nas filas dos postos de saúde; que quase não vemos jornalistas negros, mas estes são expostos diariamente em páginas policiais; que não temos quase professores negros, especialmente em posições com melhores salários, e vemos alunos negros apenas em escolas públicas enquanto, na universidade pública quase só encontramos brancos.

A situação dos indígenas não é diferente, quando eles ainda sofrem lutando pelo direito mínimo de ter suas terras e aldeias, mesmo isso lhes é surrupiado pelos brancos. Vamos parar com esta falácia de dizer que não aceitamos cotas raciais na universidade, porque não queremos ser racistas: se vivemos no Brasil, se fomos criados nesta cultura, se construímos nossas vidas dentro deste conjunto de relações onde a raça é um elemento determinante, somos todos racistas! Não fujamos da realidade. Não usemos a falsa desculpa de que não queremos criar divisões entre raças no Brasil. Nossa sociedade poderia ser mais dividida racialmente do que já é hoje?

O estudo de Marcelo Paixão intitulado "Racismo, pobreza e violência", compara o IDH dos brancos e dos negros dentro do Brasil. O IDH tenta medir a qualidade de vida das populações, combinando os três fatores que, por abranger, cada qual, uma imensa variedade de outros, seriam os essenciais para a medição: renda por habitante, escolaridade e expectativa de vida. Na última versão do IDH, de 2002, o Brasil ocupa o 73º lugar entre 173 países avaliados, mesmo possuindo todas as riquezas nacionais e sendo o 11º país mais desenvolvido economicamente no mundo. Porém, entre 1992 e 2001, enquanto em geral o número de pobres ficou 5 milhões menor, o dos pretos e pardos ficou 500 mil maior. [Consideram-se brancos 53,7% dos brasileiros; pretos ou pardos, 44,7%, que chamaremos, hora em diante de negros]. O estudo mostra que Brasil dos brancos seria, na média o 44º do mundo em matéria de desenvolvimento humano, ao passo que o Brasil dos negros estaria no 104º lugar!!!

Nada disso é novidade, porém, para quem aceita viver com os olhos minimamente abertos. Temos que reconhecer que vivemos num sistema estruturalmente racista, que se reproduz em cima de mecanismos constantes de exclusão e exploração dos negros e de privilégios naturalizados aos brancos. Em um sistema racista, pessoas brancas se beneficiam do racismo, mesmo que não tenham intenções de serem racistas. Nós brancos não precisamos enxergar o racismo estrutural porque não sofremos diariamente diversos processos de exclusão e tratamento negativamente diferencial por causa de nossa raça. Nossa raça (e seus privilégios) são tornados invisíveis dia-a-dia. Este sistema de privilégios invisíveis a nós brancos é que nos põe em vantagens a todo instante, por toda nossa vida, em todas as situações, e que destroça qualquer tentativa de pensarmos que estamos onde estamos apenas por méritos pessoais. Que mérito puro pode ter qualquer branco de estar no lugar confortável em que se encontra hoje, mesmo que tenha saído da pobreza, dentro de um sistema que lhe privilegiou apenas por ser branco, ao mesmo tempo em que prejudicou outros tantos apenas por serem negros?

Vamos apresentar uma breve listinha de circunstâncias em nossas vidas que expõem nossos privilégios de brancos e que, embora não percebêssemos, embora os víssemos apenas como relações naturais para nós, por sermos pessoas normais e "de bem", foram decisivas para nos trazer onde estamos (e por não serem vivenciados também por negros e indígenas, seu resultado é fazer com que seja tão desproporcional o número destas populações dentro da UFRGS, por exemplo): 1) Sempre pude estar seguro de que a cor da minha pele não faria as pessoas me tratarem diferentemente na escola, no ônibus, nas lojas, etc; 2) Estou seguro de que a cor da pele dos meus pais nunca os prejudicou em termos das busca ou da manutenção de um emprego; 3) Estou seguro de que a cor da pele dos meus pais nunca fez com que seu salário fosse mais baixo que o de outra pessoa cumprindo sua mesma função; 4) Posso ligar a televisão e ver pessoas de minha raça em grande número e muitas em posições sociais confortáveis e que me dão perspectivas para o futuro; 5) Na escola, aprendi diversas coisas inventadas, descobertas, grandes heróis e grandes obras feitas por pessoas da minha raça; 6) A maior parte do tempo, na escola, estudei sobre a história dos meus antepassados e, por saber de onde eu vim, tenho mais segurança de quem sou e pra onde posso ir; 7) Nunca precisei ouvir que no meu estado não existiam pessoas da minha raça; 8) Nunca tive medo de ser abordado por um policial motivado especialmente pela cor da minha pele; 9) Já fiz coisas erradas e mesmo ilegais por necessidade, e nunca tive medo que minha raça fosse um elemento que reforçasse minha possível condenação; 10) Posso ir numa livraria e perder a conta de quantos escritores de minha raça posso encontrar, retratando minha realidade, assim como em qualquer loja e encontrar diversos produtos que respeitam minha cultura; 11) Nunca sofri com brincadeiras ofensivas por causa de minha raça; 12) Meus pais nunca precisaram me atender para aliviar meu sofrimento por este tipo de "brincadeira"; 13) Sempre tive professores da minha raça; 14) Nunca me senti minoria em termos da minha raça, em nenhuma situação; 15) Todas as pessoas bem sucedidas que eu conheci até hoje eram da mesma raça que eu; 16) Posso falar com a boca cheia e ficar tranqüilo de que ninguém relacionará isso com minha raça; 17) Posso fazer o que eu quiser, errar o quanto quiser, falar o que eu quiser, sem que ninguém ligue isso a minha raça; 18) Nunca, em alguma conversa em grupo, fui forçado a falar em nome de minha raça, carregando nas costas o peso de representar 45% da população brasileira; 19) Sempre pude abrir revistas e jornais, desde minha infância, e estar seguro de ver muitas pessoas parecidas comigo; 20) Sempre estive seguro de que a cor da minha pele não seria um elemento prejudicial a mim em nenhuma entrevista para emprego ou estágio; 21) Se eu declarar que "o que está em jogo é uma questão racial" não serei acusado de estar tentando defender meu interesse pessoal; 22) Se eu precisar de algum tratamento medico tenho convicção de que a cor da minha pele não fará com que meu tratamento sofra dificuldades; 23) Posso fazer minhas atividades seguro de que não experienciarei sentimentos de rejeição a minha raça.

Esta realidade destroça meu mito pessoal de meritocracia. Minha vida não foi o que eu sozinho fiz dela. Muitas portas me foram abertas baseadas na minha raça, assim como fechadas a outras pessoas. A opção de falar ou não em privilégios dos brancos já é um privilegio de brancos. Se o racismo, e os privilégios dos brancos são estruturais, as ações contra o racismo devem ser também estruturais. Racismo não é preconceito: racismo é preconceito mais poder. Se não forçarmos mudanças nas relações e posições de poder em nossa sociedade, estaremos reproduzindo o racismo que recebemos. E agora chegou a hora de a universidade dizer publicamente: vai ou não vai "cortar na própria pele" o racismo que até hoje ajudou a reproduzir, estabelecendo imediatamente Cotas no seu próximo vestibular? Se mantivermos o vestibular "cego às desigualdades raciais" estaremos, na verdade, mantendo nossos olhos fechados para as desigualdades raciais que nós mesmos ajudamos a reproduzir sociedade afora.

Nós, brancos da universidade que assinamos esta carta já nos posicionamos: exigimos cortar em nossa própria pele os privilégios que até hoje nos sustentaram. Cotas na UFRGS já!

16 comentários:

  1. João Batista de Jesus Felix15 de setembro de 2010 05:49

    Muito interessante este documento, é mais uma contribuição à discussão sobre a superação das desigualdades sócio-econîmicas existente entre negros, índios e brancos no Brasil.

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  2. Interessante e motivador. Espero que sirva de incentivo para outros estudantes e que aqueles que vêem as políticas de ação afirmativas como uma proposta que visa atribuição de privilégios, possam repensar sua postura a partir de uma análise do papel dos negros e índios na memória histórica do país e das oportunidades que lhes são dadas pela estrutura social e política contemporânea. Parabenizo este grupo pela iniciativa!

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  3. Este documento caracteriza, que ser negro não e apenas uma questão de cor, e sim de consciência;
    Graças a conivência e a paralisia das direções do MN, o "Estatuto da (DES)Igualdade Racial" não apenas não avança nas políticas para a questão racial, é um retrocesso histórico do MN, como é uma ofensa aos ativistas que dedicaram anos de sua vida à luta contra o racismo, ao excluir literalmente do texto o termo raça, as referências à escravidão e a identidade negra;
    Mas uma coisa é certa. Localizada em meio a um complexo e permanente processo de Luta e Assimilação...O POVO NEGRO tem sido um dos maiores e mais fortes focos de RESISTÊNCIA à dominação. Parabénz pela corajem de expressarem suas consciências...

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  4. Texto lúcido atento as desigualdades sóciorraciais e que promove uma reflexão e iniciativas para equalizar tais diferenças no caso a adoção de ações afirmativas no ensino superior.
    Parabéns para os alunos que assinaram essa proposta, se mais brancos e negros pensassem assim o Brasil seria com certeza um País mais desenvolvido material,simbolicamente e com uma alta estima por si próprio!!

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  5. Quem só estuda em rede pública, quando abre prova de vestibular transparece um perfeito idiota e só passa por milagre. Já quem fez pré-estibular ante isso parece um gênio e só não passa por milagres. Quem quiser conhecer como universidade pública, mas ainda UFRG, sempre agiram oara alijar ingresso da rede pública, peça documento da minha pesquisa: joaobatistanascimento[a]yahoo.com.br

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  6. Interessante. Eu acho que é primeira vez na história deste país que branco tomam uma posição parecida.

    Quem assina?

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  7. Bravo! Bravíssimo! Pois justiça e raparação finaceira não pode mais depender da raça. Nós negros e indígenas estamos praticamente perdendo completamente a esperança de contar com um mínimo de sentimento humanitário ou com algum traço de bom senso vindo de vocês. Este texto mostra que ao contrário, no que diz respeito ao brancos, nem tudo esta perdido. Isto é, talvez uma fração mais jovem e desprendida ainda possa ser recuperada.

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  8. Salve, esse manifesto deve ser um exemplo a ser seguido por outros grupos de estudantes universitários e pelos diversos movimentos sociais que se irmanam por serem historicamente oprimidos. Quanto mais posicionamentos públicos desse tipo, mais poderemos avançar na discussão e nas práticas contrários ao mito racial brasileiro, o qual infelizmente ainda está em voga e continua sendo disseminado pelo país.

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  9. Tendo acompanhado e apoiado o processo que culminou com a implantação das cotas raciais na UnB tenho me preocupado com as constantes ameaças que a política de cotas tem enfrentado. Confesso que a leitura desta carta revigora a esperança de quem sonha com um pais sem desigualde social. Parabéns aos estudantes pela clareza com que tratam o assunto e pela posição política que assumem.
    Mariza Monteiro Borges

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  10. Antes de elogiar o manifesto, cabe refletir sobre o seguinte trecho de "A Culpa Branca", de Shelby Steele:

    Como a culpa branca é um vácuo de autoridade moral, ela torna a autoridade moral dos brancos e a legitimidade das instituições americanas dependente da prova de uma negativa: que eles não são racistas. O grande poder da culpa branca deriva do fato de que ela funciona por estigma, como o próprio racismo. Os brancos e as instituições americanas são estigmatizados como racistas até que eles provem o contrário. ... [A] culpa branca não deixa espaço para a escolha moral; ela não depende da boa vontade ou genuína decência das pessoas. Ela depende do seu medo de estigmatização, seu medo de serem chamadas de racistas.

    Em outras palavras, antes de parabenizar os autores, convém perguntar se eles não estão tentando obter autoridade mediante mera dissociação.

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  11. Nossa e gratificante ler um manifesto desse teor , gente o que imagino futuramente e uma nacao forte e igualitaria , ninguem vai nos segurar..imaginem????
    Senhores governantes imaginem???

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  12. Muito bom o texto. Por ser negro sou afetivamente a favor das cotas, porém me faltava segurança de argumentos. Nunca encontrei uma argumentação com a qual eu concordasse tanto como essa. Porém ao ler a questão da "culpa branca" fiquei mais uma vez dividido. Engraçado e sintomático da situação racial do brasil que um texto tão bacana tenha saído de um grupo de brancos. E ostensivamente demonstrado como uma opinião de brancos a respeito do assunto. Louvável... sempre. Mas ainda espero que o Brasil amadureça a ponto de redigir documentos a respeito do assunto onde a cor de quem coloca suas opiniões não sirva de chancela para o texto. Será que se fosse um manifesto de "negros" teria a mesma repercussão?
    Mas é claro que não posso deixar de parabenizar os estudantes por essa medida.
    VAMOS EM FRENTE!!!!

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  13. Parabenizo os escribas do documento pela coragem e posicionamento lúcido. Fiquei feliz por ter lido o manifesto.

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  14. atitude nos traz a luz que nem todo mundo é hipocrita. Que assim como no periodo colonial haviam brancos abolicionista e pretos conformados com a escrevidão, hj temos brancos a favor das cotas e genios raciais contra.
    Prettu Jr
    Rapper e escritor carioca
    autor do livro. Um Pouco além das rimas:
    O preto e a cidade

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  15. É um bom início de reflexão e exemplo para os "criollos" brasileiros entenderem o que participar da classe dominante por herança epitelial européia e não por este tal de mérito que um pessoal continua defendendo. As elites se reproduzem entre os seu iguais no mundo inteiro, e os iguais são os iguais brancos, e o Brasil dominado economicamentew pelos filhos dos 'colonizadores não fica fora do mundo.
    Quem não sacar isto, tem que jogar seu título de cientista social na lata da "meritocracia".

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  16. Como podemos consultar o documento completo, com assinaturas?

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